Carlos Higgie - escritor




Escrito por Carlos Higgie às 22h36
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Um passo, somente um passo

 

Um passo, somente um passo

O idiota acreditava que eu ficaria ali, olhando, estático, paradinho e quieto como se fosse uma árvore.

– Não pode passar daqui! – avisou e foi embora, pisando forte, fazendo soar as botas brilhantes, engraxadas com fúria e

esmero.

Sempre fui assim, não gosto que me digam que não posso fazer alguma coisa. Não gosto. Fico possesso quando me colocam

limites, quando me dizem o que posso ou não fazer. Claro, muitas vezes, tinha que me segurar e respeitar ou me arrebentavam

a alma a chutes.

Algo assim como uma raiva surda (ou muda?) começou a subir de algum lugar do fígado, uma coisa insana, anormal, como

uma onda que avançava pelas minhas veias, provocando uma revolução no meu sangue, uma ebulição em todo meu corpo.

– Não pode passar daqui! – avisou e me deixou ali, parado, esperando que eu não me mexesse, que ficasse como se fosse

uma pedra.

Já falei, fico furioso quando me dizem o que tenho que fazer. Por isso, fiquei olhando para a faixa vermelha, cuidadosamente

pintada no piso impecável. Olhava e não pensava, porque se começasse a pensar não sei o que poderia acontecer. Olhava e

olhava outra vez. Sentia-me pedra, árvore, coisa... E não sou qualquer coisa. Não sou um ser inanimado, não sou o que eles,

ele principalmente, pensam que sou.

Aquela energia ou fogo ou onda subia desde algum ponto desconhecido do meu corpo, não, não era do fígado. Subia e fermentava

meu sangue, sacudia-me, empurrava-me.

– Que vão à merda! – pensei e olhei ao meu redor. Outros, como eu, estavam ali e me olhavam porque adivinhavam o que

eu estava pensando. Dependiam da minha atitude, queriam saber se eu teria coragem ou não. Se eu iria fazer aquilo ou não.

Então, com um gesto debochado, caminhei lentamente até a faixa vermelha. Eles todos, aqueles que me olhavam, caminharam

também e pararam quando eu parei a escassos centímetros do limite crucial. Passeei meu olhar pelo rosto de todos, sorri e

pisei firme do outro lado da faixa. Antes de escutar os disparos, vi os projéteis. Mas já era tarde: todos estávamos do outro lado

da faixa, desobedientes, felizes como uns idiotas, sem saber se a vida ia nos premiar ou nos condenar por tanta rebeldia.



Escrito por Carlos Higgie às 22h22
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SOMENTE UMA VEZ

 Abrimos uma melancia tão vermelha e doce que não parecia real. Era verão e a lua cheia acreditava ser sol, entrando pelas cortinas leves e clareando as ruas, os jardins descuidados e os pátios. Algo irreal perturbava nossas almas. Algo que sentíamos impossível nos envolvia. Não sei se os teus gestos ou os meus, provocaram a ruptura, rachando as comportas da razão e permitindo que nossos rios de loucura transbordassem. Sei que juntamos nossas mãos na carne vermelha da melancia e nos regozijamos com a sua frescura e sabor, sei que teu vestido leve e voador me excitava terrivelmente e que em determinado momento, te beijei, repeti o gesto e não soubeste o que fazer com tanta fúria e paixão, com tanto carinho. Não disseste nada. Teus olhos repletos de plenilúnio murmuraram desejos e medos, gritos e silêncios, enquanto levavas aos lábios um pedaço de fruta suculenta. Foi um instante mágico e único. Vencemos a última barreira e nos deixamos arrastar por aquela torrente ensurdecedora.

Já não importava se era proibido, se era pecado. Teu corpo de gazela jovem foi buscando os contornos do meu. Como figuras de argila, pronta para ser moldada, fundimo-nos. Respirei teu ar, mesclei minha saliva com a tua, deixamos uma esteira inesquecível no mar do amor. Sobre a mesa da cozinha, escrevemos uma história incrível de puro desejo e ternura. Tuas pernas separadas, tua boca entreaberta murmurando meias palavras, meu corpo lavrando em tua carne, semeando tua alma, fazendo florescer teus desejos, transformando teus pensamentos mais escondidos e secretos em frutas tentadoras. Nunca ninguém tão proibido e tão apaixonado te amou. Jamais poderão dar-te o que dei naquela noite de verão. Já então tu sabias. Por isso, quando esgotamos nossas forças e alcançamos o cume de nosso desejos, quando satisfeitos e cansados nos espalhamos sobre a mesa, começas-te a chorar mansamente, em silêncio. Nem meu abraço fraterno, nem meus beijos conseguiram apagar de tua alma aquela sensação de perda, aquele sentimento de haver provado o proibido uma vez. Somente uma vez e nunca mais.

 



Escrito por Carlos Higgie às 10h51
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AS CORES DA VIDA

 

Uma borboleta desenhou seu vulto no ar matinal, percorrendo a estrada que o sol havia traçado, combinando luzes e partículas de pó. Depois, escapando do magnetismo daquela rota solar, titubeou um pouco e, com uma pirueta espetacular desceu e pousou no seio esquerdo de Manuela, um pouco maior do que o outro e com um sinal que parecia um pequeno lago negro em uma imensa planície branca.

Contrastava com a pele deliciosamente nívea, o corpo do estrangeiro, deitado com a cabeça mergulhada no travesseiro, totalmente nu e espetacularmente negro e brilhante.

Aquele corpo excitava terrivelmente à Manuela. Por aquele negro, de origem desconhecida, toda a sua essência havia entrado em convulsão, como se um terremoto sacudisse a sua feminilidade e destruísse todas as suas estruturas.

Olhando a borboleta amarela, que insistia em aproveitar seu seio para descansar, a mulher recordou a noite anterior, quando havia encontrado o homem em uma ruela escura da cidade. Um medo irracional tinha percorrido seu corpo, um terror que não tinha explicação e que, magicamente, transformou-se em curiosidade, excitando-a. O homem se expressava em um idioma desconhecido para ela, mas que soava doce e incitante. Parecia perdido, queria alguma coisa que ela não conseguia compreender. De qualquer maneira, ela estendeu-lhe a mão e conduziu-o pelas ruas vazias da cidade.

Uma tremenda excitação apoderou-se de suas entranhas. Uma vontade louca de retornar, de esquecer, de entregar-se àquela idéia maluca, descabida, inconcebível até poucas horas antes, envolveu sua consciência e impeliu-a a abandonar-se. A noite era mais escura que a pele do estrangeiro. Uma noite quente e densa, sem lua, sem estrelas, uma noite de outro mundo. Adivinhando o caminho, ela levou-o até a cabana que sabia estar desocupada. Alimentou-o com o pouco que encontrou na cozinha e depois, com toda a experiência adquirida e instintiva, derrubou-o sobre a cama e como um animal enlouquecido, serviu-se do corpo negro e ardente, deixando que as suas fantasias mais loucas conduzissem o seu corpo e o seu espírito totalmente perturbado.

O homem era um animal hábil e sensível. Mergulhava no corpo feminino, navegando a carne dolorosamente branca e receptiva, empurrando-a com seu vigor físico até a beira do abismo e sem deter-se, até o fundo do rio mais escuro e confuso, de onde ela emergia radiante, deslumbrante, pronta para outro embate, pronta para ser possuída por aquele ser quase irreal, que a inundava de puro prazer.

O corpo masculino exalava um odor irresistível que acabava com os últimos resquícios de razão de Manuela. Sua boca era atrevida e exigente, explorando seus seios, seu umbigo, todo o seu corpo, com fome e sede. Seu negro sexo parecia crescer sem nenhum controle. Instintivo e incansável, era mais que um descobrimento na vida de Manuela, era uma revelação pela qual ela havia esperado por toda a sua pacata e previsível existência.

Abandonando os últimos segundos de razão, entregou-se, deixando que o estrangeiro usufruísse de sua loucura, de seu deleite, clamando por aquele cheiro acre, por aquele músculo forte, por aquele corpo inesquecível que entrara no seu, fazendo com que perdesse a consciência , devolvendo-a depois a uma realidade muito melhor e muito mais prazerosa. Sentindo-se a mulher mais amada do mundo, explodiu em um gozo alucinante, um orgasmo incrível que parecia dividir suas células, seus átomos, provocando uma explosão esplendorosa em seu interior. Possuída sem piedade, suplicava que ele parasse, que precisava respirar, pensar. O corpo negro, no entanto, pleno de energia, insistia naquele delirante movimento. A carne negra penetrava a branca carne, abrindo caminhos, sondando sensibilidades. As mãos grandes do homem, moviam o corpo feminino buscando sua satisfação. De joelhos na cama, com as mãos apoiadas na cabeceira, a loira cabeça no travesseiro, Manuela sentiu primeiro uma dor dilacerante, depois, uma sensação desconhecida crescendo desmesuradamente e deixando-a com uma vontade louca de abrir-se, de receber cada vez mais aquele estrangeiro enorme e arrebatador. Com um grito tribal, o forasteiro derrubou-se sobre ela, inundando-a, fazendo-a delirar.

A borboleta amarela abandonou o seio esquerdo de Manuela e, fazendo acrobacias, evadiu-se pela janela. Manuela levantou-se. Feliz e dolorida caminhou até a porta, e dali analisou com terna paixão o corpo negro e desnudo. Parecia conservar parte do suor e do brilho da noite anterior. Os pés grandes e perfeitos, as pernas grossas e sólidas, as nádegas firmes e tentadoras, as costas amplas, os braços grandes e a cabeça mergulhada no travesseiro. Nunca mais teria sobre ela um homem como aquele, capaz de enlouquecê-la daquela maneira. Dirigindo-lhe um derradeiro olhar, abriu a porta e saiu à rua. Começou, então, a imaginar, que explicações daria ao seu marido, aos seus filhos, à sua mãe, pensando que história aloucada inventaria para explicar aquelas marcas em seu corpo e toda uma longa noite de ausência. Sorriu e soube que, daquele momento em diante, o mundo já não seria mais o mesmo, muito menos ela...



Escrito por Carlos Higgie às 10h49
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UM CERTO CHEIRO DE MENTA

 

Quase todas as tardes, quase pisando a noite, caminhava até a casa de Estela, respirando com certo temor e excitação contida, aquele cheiro de menta e cravo do ar, fumaça de lenha molhada e cheiro forte, inconfundível, de cavalos e vacas. A noite já o envolvia, quando chegava ao portão da pequena casa. Como todas as moradias daquela quadra e do bairro, era de madeira. Estava um pouco inclinada para o lado e transpirava pobreza. Ele não se importava; estava ali por Estela e nada mais lhe interessava. Queria beijá-la e tê-la, desfrutando ao máximo aquelas horas que passavam juntos.

A mãe da garota os observava de longe. Eles permaneciam sentados na sala, falando e conversando assuntos que não os motivava muito. De repente, ele se levantava e dizia que estava na hora, que tinha que levantar-se cedo, pela manhã. A velha se alegrava. Sua vigília havia terminado e podia ir tranqüila para a cama.

Estela o acompanhava até o portão. Procuravam a parte mais escura para iniciar as despedidas. Ele a beijava demoradamente e ia aumentando a pressão. Ela resistia, embora sem muita convicção, enquanto as mãos do rapaz entravam por debaixo da roupa, desabotoavam o "soutien" e apoderavam-se dos seios e imediatamente iniciavam o caminho para baixo, até as pernas, escorregando para baixo da cintura, alcançando a suavidade ardente das pernas morenas e a umidade tentadora do sexo feminino. Ela apertava as pernas, porém , a mão cruel, com seus dedos mágicos já estava ali e começava o glorioso ritual.

- Não ! ... gemia ela, porém se entregava novamente e cada vez mais.

Determinado e preciso, ele a encostava contra o muro, baixo e extremamente prático, e a libertava da prisão que era sua calcinha e com o seu sexo, que era a arma e instrumento de tortura e prazer a abria, a levantava, fazendo-a voar, gozar, e devolvia-a à terra como num passe de mágica. Rápido e apaixonado, a levava à loucura e a fazia feliz, apesar do sentimento de culpa que crescia em sua alma.

Muitas vezes, repetiram e inventaram gestos, se beijaram, morderam, beberam de todas as fontes e de todos os rios; sempre a hora da despedida, em noites quentes ou completamente geladas. Ele sempre a deixava com uma mancha de sêmen na calcinha, uma dúvida imensa na consciência e um ar de felicidade vibrando em todas as células.

Mil vezes se beijaram e se amaram, quase em silencio, excitados pela paixão juvenil e pela presença do perigo constante.

Aquela noite parecia especial. A primavera era morna e eles estavam com roupas leves. Ela recendia a talco e sabonete. Estava deliciosamente excitada. A mãe se retirou cedo, queixando-se de uma forte enxaqueca e eles correram para o portão. A rua estava deserta e escura como nunca. Ele sentou-se no muro, esperando um beijo, uma carícia. Estela, num gesto impensado e desconcertante se aproximou, abrindo-lhe a braguilha e apoderou-se do sexo do rapaz e o introduziu em sua boca. Nunca havia feito alguma coisa parecida. Ele, entre surpreendido e transtornado, deixou-se envolver por aquela onda perturbadora. Ela beijava, mordia, acariciava e sugava, beijava novamente, envolvendo-o com os lábios macios e carnudos. Levantando-se rapidamente, ela deixou cair a calcinha e sentou-se sobre o rapaz e, deixou-se penetrar cavalgando-o em uma louca carreira até os limites da consciência, mordendo-se para não gritar.

Quando terminaram, olharam-se surpreendidos e ela decidida, iluminada repentinamente de plena felicidade, quis beijá-lo. Ele, no entanto, esquivou-se, com um a máscara de nojo desenhada no rosto.

- Por quê ? - perguntou Estela.

E ele, olhando-a nos olhos e sacudindo as calças, como se quisesse livrar-se de algo imundo, respondeu à queima roupa:

- Por que não beijo putas !

 



Escrito por Carlos Higgie às 10h40
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LUAU




Ontem, quando falamos por telefone, com certeza notaste que eu estava um pouco alterada. Nada grave aconteceu, só que , dia a dia, sinto que as coisas se complicam, que a vida está cada vez mais conturbada, confundindo-me. Te escrevo com um pouco de medo, porque ainda não descobri o que me aconteceu exatamente. Simplesmente a vida corre rio abaixo e me consome.
A semana passada fomos todos a um “luau”. Colocaram tochas na praia , mesas com frutas, peixe assado e bebidas. Janete me dizia: “Nicole, não bebe champanhe que vais ficar tonta”, Eu havia brigado com Fernando e não a escutei. Queria divertir-me, esquecer os problemas grandes e pequenos.
Claro que Petrick é um velho, pelo menos para mim, porém algo inusitado aconteceu naquela noite. Creio que o champanhe me abriu o espírito e me contaminou a alma. Fiquei mais sensível ou vulnerável. Ele recitava poemas intermináveis de autores que eu nunca li. Eu bebia, divertida, todas as taças de champanhe que passavam perto. Por isso quando ele me convidou para entrar no mar, nem duvidei. Tirei os sapatos e entrei. Ele estava de bermudas e com uma camiseta que tinha uma âncora bordada. Eu estava com uma saia branca, perigosamente curta, uma camiseta da mesma cor e por baixo toda de azul céu. Te conto isso porque quando me molhei, e apareceu a cor do soutien e da calcinha, ele murmurou, quase mordendo as palavras: “ Estás toda de azul, minha cor preferida...” Com a água chegando-me aos seios, compreendi que havia cometido um erro, mas já era tarde. Petrick me cortou o caminho até a praia, rodeou-me com os braços atraindo-me e procurou minha boca. Ainda rindo pelo efeito da bebida, disse-lhe que não e esquivei o beijo. Ele beijou-me no pescoço e eu senti frio e calor ao mesmo tempo. Consegui separar-me , me arrastei até a praia, empurrada pelas ondas. Petrick vinha atrás como um tubarão desvairado, gritando: “ Corre Nicole, corre que vou te devorar!” Saímos perto das rochas, em um lugar solitário e, aproveitando que eu estava quase caindo, derrubou-me na areia macia e morna. Rodamos divertidos, até que ele, ciente da minha tontura, beijou-me introduzindo sua língua selvagem em minha boca. Claro que gostei, mas me fiz de rogada querendo mantê-lo sob controle. Era difícil. Suas mãos rápidas e decididas, foram quebrando minhas resistências, derrubando preconceitos que, até aquele momento, me pareciam insuperáveis. Num instante estava seminua, só com a saia molhada. Ele me beijava, me mordia com avidez, com uma vontade incrível. Sentou-se numa pedra e me disse: “ Vem...” Te juro, estava prá lá de bêbada, porque fui. Suas mãos trabalharam pelo meu corpo. Eu tremia como uma vara verde e comecei a suplicar que me deixasse, que não queria. Murmurou alguma coisa que não entendi e eu fechei os olhos para senti-lo melhor. Ele foi sábio e paciente, suave e constante. Creio que gritei e o mar afogou meus gritos, creio que mordi-lhe o ombro e o insultei, porque descobri como é bom e terrível ser mulher e entregar-se, com medo e prazer, a um homem faminto de amor.



Escrito por Carlos Higgie às 13h33
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FRUTA PROIBIDA





_ Sou casada, Germano – disse em um doce e sensual sussurro, Maria Helena.
_ Eu não tenho ciúmes – respondeu Germano, enquanto mordia-lhe os lábios, sufocando suas reclamações.
Lá fora, uma chuva forte caía persistente, fazendo com que tudo ficasse cinzento. O mar, os edifícios, as casas, as ruas, o ônibus lento e pesado, as pessoas que insistiam em um formigamento constante, indo e voltando, como se não fossem para lugar nenhum.
Germano não acreditava que estava com aquela mulher num motel. Tantas vezes tinha almejado aquilo, observado-a de longe sem ousar atacar. Durante noites infinitas tinha sonhado com ela, em outras tantas noites imperdoáveis tinha procurado aquela fêmea, em vão, em outros corpos. Debaixo da luz delicada, difusa, Maria Helena se revelava a mulher ardente intuída, por ele, nas horas loucas de solidão; uma mulher plena e sublime, transbordando de paixão, inventando desculpas esfarrapadas para que o homem não ultrapassasse a última e definitiva fronteira.
_ Isto não é possível. Não é correto – ela gemeu, enquanto ele a beijava e tentava alcançar um seio, introduzindo a mão debaixo da blusa.
_ Não pretendo contar nada a qualquer pessoa. O amor não está correto ou incorreto, simplesmente acontece nas vidas – ele murmurou cinicamente.
Consegui despi-la e viajou o corpo feminino inteiro com sua boca. Ela delirou, subindo as paredes, procurando oxigênio, enquanto o orgasmo chegava em louca carreira escravizando sua vontade, deixando-a à beira da loucura. Germano nunca poderia imaginar em que mares de puro prazer ela naufragou naquela tarde chuvosa. Quando aconteceu, Maria Helena foi à loucura, pela sua mente passaram todos os homens que a tinham possuído desde a adolescência, quando quase sem querer foi feita mulher. Germano viajava por seu corpo como se conhecesse cada palmo de sua pele, cada canto de sua sensualidade, fazendo-a alcançar o limite do prazer. Jovem e sábio, aquele homem a fazia sentir-se cada vez mais mulher. Jovem e proibido, aquele homem mordia a sua alma em cada beijo, dando-lhe na boca o fruto da perdição. Ele ia e vinha sobre ela, devorando-a em cada beijo, vendo como o desejo crescia-lhe na pele e transbordava no seu olhar, nos seus poros. Toda a luxúria do mundo convergiu para os seus corpos em total e perfeita cópula. Todo o resto desapareceu, nada mais existia. Eles estavam em um microcosmo de puro sexo, sentido odores confusos e excitantes, ouvindo vozes milenares, como se todos os homens e mulheres, todos os amantes, todas as relações malditas e condenadas, ficassem resumidas nos seus corpos, suados e brilhantes. Todo o resto estava fora. A tarde chorosa, as faces familiares que sem dúvida os repreenderiam, os gritos e os silêncios. Quando Germano derramou dentro de seu corpo os seus medos, a sua ira, tudo o que ele sempre quisera e não pôde alcançar, ela o recebeu com sua natureza de mulher afetuosa, enquanto o abraçava e implorava para que aquele homem único e magnífico permanecesse dentro do seu corpo para sempre, sem se preocupar se o mundo terminaria, em chuva ou em fogo, sem se importar com o fato dela ser casada e de Germano, seu amor proibido, ser o irmão caçula de seu marido.



Escrito por Carlos Higgie às 10h07
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OS ÓCULOS

OS ÓCULOS

Como estou enfrentando longos trechos de estrada, muitas vezes com o sol castigando sem piedade, minha mulher resolveu comprar uns óculos escuros, para proteger meus belos e delicados olhos.
Foi difícil encontrar, principalmente por que meu rosto arredondado e gordo não combina muito com esses óculos modernos. Depois tem a questão do preço: para comprar um par de óculos é necessário entregar um olho e um pedaço do outro. Então: para que usar óculos?
Após longa procura, chegamos a uma ótica e a solícita vendedora colocou sobre o balcão vários produtos, com diferentes características, preços e formatos. Eu já estava desistindo, aquilo me parecia uma grande confusão que não levava a nada.
A moça, percebendo que perderia uma venda, tirou da manga seu último argumento. Mostrou-me uma lamina e perguntou o que eu enxergava. “ Algo parecido com uma árvore”, respondi. “Você não está enxergando o peixe!”, entusiasmou-se ela. “Que peixe”, perguntei. Ela pediu para que eu colocasse os óculos, aqueles que ela tentava vender, e olhasse de novo para a lamina. Pasmem! Do nada, na parte inferior do desenho apareceu um peixe. “Ele sempre esteve ali, você só não conseguia ver”, explicou a moça. “Com estes óculos, que eliminam reflexos, você poderá ver as coisas com mais clareza e dirigir com maior segurança”.
Claro, comprei os óculos e saí pela rua olhando para todos os lados, enxergando coisas que, até então, os reflexos enganosos furtavam da minha visão. Fiquei tão feliz que comecei a usar os óculos até nos dias nublados e durante a noite.
Mas um dia desses, divagando enquanto dirigia, um pensamento assustador mexeu com minha tranqüilidade. E se o mundo não é como eu o enxerguei e percebi até agora? E se tudo não passa de uma ilusão? Será que fui enganado, ludibriado, durante todos estes anos?
Estou pensando seriamente em quebrar os óculos e recuperar minha paz.


Escrito por Carlos Higgie às 10h05
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CRÔNICA DE UM CONTO DELETADO

CRÔNICA DE UM CONTO DELETADO


O relato ficou excelente. Se fosse um vinho seria dos bons, desceria redondo, com muito corpo e sabor. Era um conto mais de amor e paixão. Uma narração falando de tempos idos, porém não esquecidos, de quando o sangue fervia intensamente e nossos hormônios, nossos instintos batiam insistentes, quase com raiva.
Hoje, quando inseri o disquete no computador, abri o arquivo e me preparei para corrigir, burilar aqui e ali, melhorar alguma frase, destacar melhor alguns dos protagonistas, tive uma desagradável surpresa. Durante a noite algum duende maléfico, algum vírus terrível, comeu meu conto. Comeu o corpo dourado de Marcela e os sussurros, os gritos de Leandro. Não restava nada da doce e sensual estória, da deliciosa luta no banco traseiro do carro, da descrição exata da boca-fruta de Marcela abrindo-se para o gemido, para o beijo, para a entrega total. Só restou, no fundo da minha alma, a esquisita sensação de perda, de que algo ou alguém tinha assassinado meus queridos personagens. Sobrou a irritante sensação de que esse duende desconhecido, que perambula pelo mundo virtual, matou-os sem piedade, somente porque eram um exemplo fiel do que é o amor: alma e corpo, pensamentos e ação, músculos e humores, gritos e sussurros, encontrando-se e desencontrando-se, gerando uma energia incrível, que faz balançar o próprio universo.
Se, como acontecia antigamente, escreve-se num caderno ou com minha velha máquina de escrever, eles ainda estariam vivos e amando-se. Dormirei esta noite pensando neles e, quiçá, amanhã pela manhã, encontre-os em um dos meus arquivos ou ao dobrar uma esquina solitária, novamente, deliciosamente abraçados. Talvez de algum recanto esquecido da minha existência, eles ressurjam com brilho estonteante, para mostrar-me, uma vez mais, como se constrói o amor.
Nada é mais desolador e triste que um escritor percebendo, impotente, como seus personagens morrerem, sem direito a reclamação nem ressurreição.



Escrito por Carlos Higgie às 10h04
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A PARTIR DE HOJE

 A PARTIR DE HOJE

A partir de hoje
Vou mudar
De sorriso
De roupa
De vida.

Buscando no mais profundo
Na raiz das raízes
A força
A luz
A energia.

Vou mudar
De pele
Trocar os dentes
Mudar
De vida.

A partir de hoje
Abrirei um caminho infinito
No campo
No mar
Na minha vida.

Roupa nova
Cara nova
Casa nova
Vida nova
A partir de hoje.

Vou mudar
Jogar fora
Todos os hábitos
Todos os vícios
Prendendo-me a nada
Crescendo na liberdade
Sendo fiel somente
Ao movimento constante
Da mudança.

A partir de hoje
Escreverei outra história
Lerei outros livros
Naufragarei em outros
Divinos e estrondosos
Amores.

A partir de hoje
E neste preciso instante
Estou no meio
Do rio poderoso
Da mudança
E um novo sol
Brilhante
Magnifico
Benéfico
Aquece e bronzeia
Minha pele nova
A nova pele
Da mudança.

A partir de hoje
O mundo será diferente
Melhor
Por que minha alma
E o meu corpo
Serão diferentes.

A partir deste instante...


Escrito por Carlos Higgie às 07h52
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MULHER

Toda poesia nasce da mulher
Do seu cabelo longo curto
Loiro moreno ruivo
multicolor
Liso crespo encaracolado
Dos seus lábios entreabertos
Doces como frutas
Esperando o beijo
Do seu corpo nu
Brilhando sublime e mágico
Na escuridão


Toda energia emana da mulher
Do seu pensamento
Claro confuso
Sensato e divinamente louco
Da sua fé incomparável

Toda magia vem da mulher
Da sua alma vibrante
Dos seus gestos
Delicados firmes
Definitivos difusos

Toda humanidade deriva da mulher
Do seu corpo abrigo
Das suas mãos criativas
Das suas rugas
Testemunhas silenciosas
De dias noites
Do amor imenso que carrega

Tudo tudo
Quase tudo
Como se a mulher fosse
O instrumento
A corda afinada
Escolhida pela natureza
Para fazer vibrar a musica da vida.


Escrito por Carlos Higgie às 12h30
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UM CACHORRO MUITO MALUCO



A chegada de Hamon-Rá, um cachorro que os entendidos diziam ser de origem egípcia, provocou uma pequena convulsão familiar, dividindo o lar em duas fações rivais. Por um lado os que eram a favor da permanência de Hamon-Rá no apartamento e do outro lado aqueles que eram contra. Ou seja: a favor a mãe, Leo, Daniel e Roberto; contra, o Pai. Solitário guerreiro, exército de um homem só, enfrentava a maioria com argumentos de todo tipo e tamanho. Nada convencia os meninos e a Mãe. O cachorro, fino, elegante, com um ar régio e claramente debochado, demarcou seu território e até mostrou os dentes, mais de uma vez, para o suposto dono da casa. O cachorro tinha uma característica que chamava a atenção: não latia. Parecia mudo. Tudo fazia em silencio, expressando seus desejos com olhares e movimentos.
Certa noite o Pai chegou cansando, tomou banho, caiu na cama, dormiu como uma pedra. Feito urso, roncava com indescritível prazer, profundamente submergido no abraço aconchegante do sono. Aquilo irritou profundamente ao silencioso cachorro. Com certeza achava que era um absurdo quebrar com aquele ronco insuportável o frágil cristal do silencio. Não teve dúvidas, invadiu o dormitório e pulou sobre a cama e mordeu e lambeu o Pai até que ele acordou furioso e gritando.
Quase foi o fim da presença canina no apartamento. Foi uma semana difícil para todos. Hamon-Rá, consciente do impasse que tinha criado, permaneceu afastado, escondendo-se debaixo da cama, na sacada, dentro do guarda-roupa, detrás da porta, cada vez que o Pai, com seu passo pesado e autoritário entrava pela porta da sala.
A solução encontrada pela Mãe foi no mínimo inusitada. Dias depois do incidente, apareceu com Sansão: um cachorrinho pequeno, quase uma bola de pelo preto e amarelado, com dois olhos pretos como bolinhas de gude, brilhantes e espertos.
O Pai reclamou e reclamou e reclamou de novo, até que o pequeno e frágil Sansão aproximou-se fazendo festa, sorrindo com a cauda, buscando o carinho do homem, fazendo com que ele sentisse o delicioso contato da seda do seu pêlo. Pronto, o novo dono da casa tomou posse.
Daquele dia em diante Sansão tomou conta do pedaço, voando do sofá para o chão feito pássaro sem asas, promovia barulhos de todo tipo e tamanho, cheirava o ar, cheirava as emoções, aprovava e desaprovava cheiros. Degustava, com fruição, o sabor do vento e brigava com todos, principalmente com Hamon-Rá, que pouco a pouco cedeu seu espaço para a pequena bola de pêlos e encrencas.
Sabiamente, mantinha uma excelente relação com o Pai e com a Mãe, para não correr o risco de ser “exportado”. Assim, num abrir e fechar de olhos, Sansão, pequeno-frágil-poderoso, passou a reinar e alegrar aquele lar.



Escrito por Carlos Higgie às 12h27
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BRASIL, Sudeste, BALNEARIO CAMBORIU, Centro, Homem, de 46 a 55 anos, Portuguese, Spanish, Livros, Arte e cultura
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