Carlos Higgie - escritor


SOMENTE UMA VEZ

 Abrimos uma melancia tão vermelha e doce que não parecia real. Era verão e a lua cheia acreditava ser sol, entrando pelas cortinas leves e clareando as ruas, os jardins descuidados e os pátios. Algo irreal perturbava nossas almas. Algo que sentíamos impossível nos envolvia. Não sei se os teus gestos ou os meus, provocaram a ruptura, rachando as comportas da razão e permitindo que nossos rios de loucura transbordassem. Sei que juntamos nossas mãos na carne vermelha da melancia e nos regozijamos com a sua frescura e sabor, sei que teu vestido leve e voador me excitava terrivelmente e que em determinado momento, te beijei, repeti o gesto e não soubeste o que fazer com tanta fúria e paixão, com tanto carinho. Não disseste nada. Teus olhos repletos de plenilúnio murmuraram desejos e medos, gritos e silêncios, enquanto levavas aos lábios um pedaço de fruta suculenta. Foi um instante mágico e único. Vencemos a última barreira e nos deixamos arrastar por aquela torrente ensurdecedora.

Já não importava se era proibido, se era pecado. Teu corpo de gazela jovem foi buscando os contornos do meu. Como figuras de argila, pronta para ser moldada, fundimo-nos. Respirei teu ar, mesclei minha saliva com a tua, deixamos uma esteira inesquecível no mar do amor. Sobre a mesa da cozinha, escrevemos uma história incrível de puro desejo e ternura. Tuas pernas separadas, tua boca entreaberta murmurando meias palavras, meu corpo lavrando em tua carne, semeando tua alma, fazendo florescer teus desejos, transformando teus pensamentos mais escondidos e secretos em frutas tentadoras. Nunca ninguém tão proibido e tão apaixonado te amou. Jamais poderão dar-te o que dei naquela noite de verão. Já então tu sabias. Por isso, quando esgotamos nossas forças e alcançamos o cume de nosso desejos, quando satisfeitos e cansados nos espalhamos sobre a mesa, começas-te a chorar mansamente, em silêncio. Nem meu abraço fraterno, nem meus beijos conseguiram apagar de tua alma aquela sensação de perda, aquele sentimento de haver provado o proibido uma vez. Somente uma vez e nunca mais.

 



Escrito por Carlos Higgie às 10h51
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AS CORES DA VIDA

 

Uma borboleta desenhou seu vulto no ar matinal, percorrendo a estrada que o sol havia traçado, combinando luzes e partículas de pó. Depois, escapando do magnetismo daquela rota solar, titubeou um pouco e, com uma pirueta espetacular desceu e pousou no seio esquerdo de Manuela, um pouco maior do que o outro e com um sinal que parecia um pequeno lago negro em uma imensa planície branca.

Contrastava com a pele deliciosamente nívea, o corpo do estrangeiro, deitado com a cabeça mergulhada no travesseiro, totalmente nu e espetacularmente negro e brilhante.

Aquele corpo excitava terrivelmente à Manuela. Por aquele negro, de origem desconhecida, toda a sua essência havia entrado em convulsão, como se um terremoto sacudisse a sua feminilidade e destruísse todas as suas estruturas.

Olhando a borboleta amarela, que insistia em aproveitar seu seio para descansar, a mulher recordou a noite anterior, quando havia encontrado o homem em uma ruela escura da cidade. Um medo irracional tinha percorrido seu corpo, um terror que não tinha explicação e que, magicamente, transformou-se em curiosidade, excitando-a. O homem se expressava em um idioma desconhecido para ela, mas que soava doce e incitante. Parecia perdido, queria alguma coisa que ela não conseguia compreender. De qualquer maneira, ela estendeu-lhe a mão e conduziu-o pelas ruas vazias da cidade.

Uma tremenda excitação apoderou-se de suas entranhas. Uma vontade louca de retornar, de esquecer, de entregar-se àquela idéia maluca, descabida, inconcebível até poucas horas antes, envolveu sua consciência e impeliu-a a abandonar-se. A noite era mais escura que a pele do estrangeiro. Uma noite quente e densa, sem lua, sem estrelas, uma noite de outro mundo. Adivinhando o caminho, ela levou-o até a cabana que sabia estar desocupada. Alimentou-o com o pouco que encontrou na cozinha e depois, com toda a experiência adquirida e instintiva, derrubou-o sobre a cama e como um animal enlouquecido, serviu-se do corpo negro e ardente, deixando que as suas fantasias mais loucas conduzissem o seu corpo e o seu espírito totalmente perturbado.

O homem era um animal hábil e sensível. Mergulhava no corpo feminino, navegando a carne dolorosamente branca e receptiva, empurrando-a com seu vigor físico até a beira do abismo e sem deter-se, até o fundo do rio mais escuro e confuso, de onde ela emergia radiante, deslumbrante, pronta para outro embate, pronta para ser possuída por aquele ser quase irreal, que a inundava de puro prazer.

O corpo masculino exalava um odor irresistível que acabava com os últimos resquícios de razão de Manuela. Sua boca era atrevida e exigente, explorando seus seios, seu umbigo, todo o seu corpo, com fome e sede. Seu negro sexo parecia crescer sem nenhum controle. Instintivo e incansável, era mais que um descobrimento na vida de Manuela, era uma revelação pela qual ela havia esperado por toda a sua pacata e previsível existência.

Abandonando os últimos segundos de razão, entregou-se, deixando que o estrangeiro usufruísse de sua loucura, de seu deleite, clamando por aquele cheiro acre, por aquele músculo forte, por aquele corpo inesquecível que entrara no seu, fazendo com que perdesse a consciência , devolvendo-a depois a uma realidade muito melhor e muito mais prazerosa. Sentindo-se a mulher mais amada do mundo, explodiu em um gozo alucinante, um orgasmo incrível que parecia dividir suas células, seus átomos, provocando uma explosão esplendorosa em seu interior. Possuída sem piedade, suplicava que ele parasse, que precisava respirar, pensar. O corpo negro, no entanto, pleno de energia, insistia naquele delirante movimento. A carne negra penetrava a branca carne, abrindo caminhos, sondando sensibilidades. As mãos grandes do homem, moviam o corpo feminino buscando sua satisfação. De joelhos na cama, com as mãos apoiadas na cabeceira, a loira cabeça no travesseiro, Manuela sentiu primeiro uma dor dilacerante, depois, uma sensação desconhecida crescendo desmesuradamente e deixando-a com uma vontade louca de abrir-se, de receber cada vez mais aquele estrangeiro enorme e arrebatador. Com um grito tribal, o forasteiro derrubou-se sobre ela, inundando-a, fazendo-a delirar.

A borboleta amarela abandonou o seio esquerdo de Manuela e, fazendo acrobacias, evadiu-se pela janela. Manuela levantou-se. Feliz e dolorida caminhou até a porta, e dali analisou com terna paixão o corpo negro e desnudo. Parecia conservar parte do suor e do brilho da noite anterior. Os pés grandes e perfeitos, as pernas grossas e sólidas, as nádegas firmes e tentadoras, as costas amplas, os braços grandes e a cabeça mergulhada no travesseiro. Nunca mais teria sobre ela um homem como aquele, capaz de enlouquecê-la daquela maneira. Dirigindo-lhe um derradeiro olhar, abriu a porta e saiu à rua. Começou, então, a imaginar, que explicações daria ao seu marido, aos seus filhos, à sua mãe, pensando que história aloucada inventaria para explicar aquelas marcas em seu corpo e toda uma longa noite de ausência. Sorriu e soube que, daquele momento em diante, o mundo já não seria mais o mesmo, muito menos ela...



Escrito por Carlos Higgie às 10h49
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UM CERTO CHEIRO DE MENTA

 

Quase todas as tardes, quase pisando a noite, caminhava até a casa de Estela, respirando com certo temor e excitação contida, aquele cheiro de menta e cravo do ar, fumaça de lenha molhada e cheiro forte, inconfundível, de cavalos e vacas. A noite já o envolvia, quando chegava ao portão da pequena casa. Como todas as moradias daquela quadra e do bairro, era de madeira. Estava um pouco inclinada para o lado e transpirava pobreza. Ele não se importava; estava ali por Estela e nada mais lhe interessava. Queria beijá-la e tê-la, desfrutando ao máximo aquelas horas que passavam juntos.

A mãe da garota os observava de longe. Eles permaneciam sentados na sala, falando e conversando assuntos que não os motivava muito. De repente, ele se levantava e dizia que estava na hora, que tinha que levantar-se cedo, pela manhã. A velha se alegrava. Sua vigília havia terminado e podia ir tranqüila para a cama.

Estela o acompanhava até o portão. Procuravam a parte mais escura para iniciar as despedidas. Ele a beijava demoradamente e ia aumentando a pressão. Ela resistia, embora sem muita convicção, enquanto as mãos do rapaz entravam por debaixo da roupa, desabotoavam o "soutien" e apoderavam-se dos seios e imediatamente iniciavam o caminho para baixo, até as pernas, escorregando para baixo da cintura, alcançando a suavidade ardente das pernas morenas e a umidade tentadora do sexo feminino. Ela apertava as pernas, porém , a mão cruel, com seus dedos mágicos já estava ali e começava o glorioso ritual.

- Não ! ... gemia ela, porém se entregava novamente e cada vez mais.

Determinado e preciso, ele a encostava contra o muro, baixo e extremamente prático, e a libertava da prisão que era sua calcinha e com o seu sexo, que era a arma e instrumento de tortura e prazer a abria, a levantava, fazendo-a voar, gozar, e devolvia-a à terra como num passe de mágica. Rápido e apaixonado, a levava à loucura e a fazia feliz, apesar do sentimento de culpa que crescia em sua alma.

Muitas vezes, repetiram e inventaram gestos, se beijaram, morderam, beberam de todas as fontes e de todos os rios; sempre a hora da despedida, em noites quentes ou completamente geladas. Ele sempre a deixava com uma mancha de sêmen na calcinha, uma dúvida imensa na consciência e um ar de felicidade vibrando em todas as células.

Mil vezes se beijaram e se amaram, quase em silencio, excitados pela paixão juvenil e pela presença do perigo constante.

Aquela noite parecia especial. A primavera era morna e eles estavam com roupas leves. Ela recendia a talco e sabonete. Estava deliciosamente excitada. A mãe se retirou cedo, queixando-se de uma forte enxaqueca e eles correram para o portão. A rua estava deserta e escura como nunca. Ele sentou-se no muro, esperando um beijo, uma carícia. Estela, num gesto impensado e desconcertante se aproximou, abrindo-lhe a braguilha e apoderou-se do sexo do rapaz e o introduziu em sua boca. Nunca havia feito alguma coisa parecida. Ele, entre surpreendido e transtornado, deixou-se envolver por aquela onda perturbadora. Ela beijava, mordia, acariciava e sugava, beijava novamente, envolvendo-o com os lábios macios e carnudos. Levantando-se rapidamente, ela deixou cair a calcinha e sentou-se sobre o rapaz e, deixou-se penetrar cavalgando-o em uma louca carreira até os limites da consciência, mordendo-se para não gritar.

Quando terminaram, olharam-se surpreendidos e ela decidida, iluminada repentinamente de plena felicidade, quis beijá-lo. Ele, no entanto, esquivou-se, com um a máscara de nojo desenhada no rosto.

- Por quê ? - perguntou Estela.

E ele, olhando-a nos olhos e sacudindo as calças, como se quisesse livrar-se de algo imundo, respondeu à queima roupa:

- Por que não beijo putas !

 



Escrito por Carlos Higgie às 10h40
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