Carlos Higgie - escritor


LUAU




Ontem, quando falamos por telefone, com certeza notaste que eu estava um pouco alterada. Nada grave aconteceu, só que , dia a dia, sinto que as coisas se complicam, que a vida está cada vez mais conturbada, confundindo-me. Te escrevo com um pouco de medo, porque ainda não descobri o que me aconteceu exatamente. Simplesmente a vida corre rio abaixo e me consome.
A semana passada fomos todos a um “luau”. Colocaram tochas na praia , mesas com frutas, peixe assado e bebidas. Janete me dizia: “Nicole, não bebe champanhe que vais ficar tonta”, Eu havia brigado com Fernando e não a escutei. Queria divertir-me, esquecer os problemas grandes e pequenos.
Claro que Petrick é um velho, pelo menos para mim, porém algo inusitado aconteceu naquela noite. Creio que o champanhe me abriu o espírito e me contaminou a alma. Fiquei mais sensível ou vulnerável. Ele recitava poemas intermináveis de autores que eu nunca li. Eu bebia, divertida, todas as taças de champanhe que passavam perto. Por isso quando ele me convidou para entrar no mar, nem duvidei. Tirei os sapatos e entrei. Ele estava de bermudas e com uma camiseta que tinha uma âncora bordada. Eu estava com uma saia branca, perigosamente curta, uma camiseta da mesma cor e por baixo toda de azul céu. Te conto isso porque quando me molhei, e apareceu a cor do soutien e da calcinha, ele murmurou, quase mordendo as palavras: “ Estás toda de azul, minha cor preferida...” Com a água chegando-me aos seios, compreendi que havia cometido um erro, mas já era tarde. Petrick me cortou o caminho até a praia, rodeou-me com os braços atraindo-me e procurou minha boca. Ainda rindo pelo efeito da bebida, disse-lhe que não e esquivei o beijo. Ele beijou-me no pescoço e eu senti frio e calor ao mesmo tempo. Consegui separar-me , me arrastei até a praia, empurrada pelas ondas. Petrick vinha atrás como um tubarão desvairado, gritando: “ Corre Nicole, corre que vou te devorar!” Saímos perto das rochas, em um lugar solitário e, aproveitando que eu estava quase caindo, derrubou-me na areia macia e morna. Rodamos divertidos, até que ele, ciente da minha tontura, beijou-me introduzindo sua língua selvagem em minha boca. Claro que gostei, mas me fiz de rogada querendo mantê-lo sob controle. Era difícil. Suas mãos rápidas e decididas, foram quebrando minhas resistências, derrubando preconceitos que, até aquele momento, me pareciam insuperáveis. Num instante estava seminua, só com a saia molhada. Ele me beijava, me mordia com avidez, com uma vontade incrível. Sentou-se numa pedra e me disse: “ Vem...” Te juro, estava prá lá de bêbada, porque fui. Suas mãos trabalharam pelo meu corpo. Eu tremia como uma vara verde e comecei a suplicar que me deixasse, que não queria. Murmurou alguma coisa que não entendi e eu fechei os olhos para senti-lo melhor. Ele foi sábio e paciente, suave e constante. Creio que gritei e o mar afogou meus gritos, creio que mordi-lhe o ombro e o insultei, porque descobri como é bom e terrível ser mulher e entregar-se, com medo e prazer, a um homem faminto de amor.



Escrito por Carlos Higgie às 13h33
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