Carlos Higgie - escritor


FRUTA PROIBIDA





_ Sou casada, Germano – disse em um doce e sensual sussurro, Maria Helena.
_ Eu não tenho ciúmes – respondeu Germano, enquanto mordia-lhe os lábios, sufocando suas reclamações.
Lá fora, uma chuva forte caía persistente, fazendo com que tudo ficasse cinzento. O mar, os edifícios, as casas, as ruas, o ônibus lento e pesado, as pessoas que insistiam em um formigamento constante, indo e voltando, como se não fossem para lugar nenhum.
Germano não acreditava que estava com aquela mulher num motel. Tantas vezes tinha almejado aquilo, observado-a de longe sem ousar atacar. Durante noites infinitas tinha sonhado com ela, em outras tantas noites imperdoáveis tinha procurado aquela fêmea, em vão, em outros corpos. Debaixo da luz delicada, difusa, Maria Helena se revelava a mulher ardente intuída, por ele, nas horas loucas de solidão; uma mulher plena e sublime, transbordando de paixão, inventando desculpas esfarrapadas para que o homem não ultrapassasse a última e definitiva fronteira.
_ Isto não é possível. Não é correto – ela gemeu, enquanto ele a beijava e tentava alcançar um seio, introduzindo a mão debaixo da blusa.
_ Não pretendo contar nada a qualquer pessoa. O amor não está correto ou incorreto, simplesmente acontece nas vidas – ele murmurou cinicamente.
Consegui despi-la e viajou o corpo feminino inteiro com sua boca. Ela delirou, subindo as paredes, procurando oxigênio, enquanto o orgasmo chegava em louca carreira escravizando sua vontade, deixando-a à beira da loucura. Germano nunca poderia imaginar em que mares de puro prazer ela naufragou naquela tarde chuvosa. Quando aconteceu, Maria Helena foi à loucura, pela sua mente passaram todos os homens que a tinham possuído desde a adolescência, quando quase sem querer foi feita mulher. Germano viajava por seu corpo como se conhecesse cada palmo de sua pele, cada canto de sua sensualidade, fazendo-a alcançar o limite do prazer. Jovem e sábio, aquele homem a fazia sentir-se cada vez mais mulher. Jovem e proibido, aquele homem mordia a sua alma em cada beijo, dando-lhe na boca o fruto da perdição. Ele ia e vinha sobre ela, devorando-a em cada beijo, vendo como o desejo crescia-lhe na pele e transbordava no seu olhar, nos seus poros. Toda a luxúria do mundo convergiu para os seus corpos em total e perfeita cópula. Todo o resto desapareceu, nada mais existia. Eles estavam em um microcosmo de puro sexo, sentido odores confusos e excitantes, ouvindo vozes milenares, como se todos os homens e mulheres, todos os amantes, todas as relações malditas e condenadas, ficassem resumidas nos seus corpos, suados e brilhantes. Todo o resto estava fora. A tarde chorosa, as faces familiares que sem dúvida os repreenderiam, os gritos e os silêncios. Quando Germano derramou dentro de seu corpo os seus medos, a sua ira, tudo o que ele sempre quisera e não pôde alcançar, ela o recebeu com sua natureza de mulher afetuosa, enquanto o abraçava e implorava para que aquele homem único e magnífico permanecesse dentro do seu corpo para sempre, sem se preocupar se o mundo terminaria, em chuva ou em fogo, sem se importar com o fato dela ser casada e de Germano, seu amor proibido, ser o irmão caçula de seu marido.



Escrito por Carlos Higgie às 10h07
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OS ÓCULOS

OS ÓCULOS

Como estou enfrentando longos trechos de estrada, muitas vezes com o sol castigando sem piedade, minha mulher resolveu comprar uns óculos escuros, para proteger meus belos e delicados olhos.
Foi difícil encontrar, principalmente por que meu rosto arredondado e gordo não combina muito com esses óculos modernos. Depois tem a questão do preço: para comprar um par de óculos é necessário entregar um olho e um pedaço do outro. Então: para que usar óculos?
Após longa procura, chegamos a uma ótica e a solícita vendedora colocou sobre o balcão vários produtos, com diferentes características, preços e formatos. Eu já estava desistindo, aquilo me parecia uma grande confusão que não levava a nada.
A moça, percebendo que perderia uma venda, tirou da manga seu último argumento. Mostrou-me uma lamina e perguntou o que eu enxergava. “ Algo parecido com uma árvore”, respondi. “Você não está enxergando o peixe!”, entusiasmou-se ela. “Que peixe”, perguntei. Ela pediu para que eu colocasse os óculos, aqueles que ela tentava vender, e olhasse de novo para a lamina. Pasmem! Do nada, na parte inferior do desenho apareceu um peixe. “Ele sempre esteve ali, você só não conseguia ver”, explicou a moça. “Com estes óculos, que eliminam reflexos, você poderá ver as coisas com mais clareza e dirigir com maior segurança”.
Claro, comprei os óculos e saí pela rua olhando para todos os lados, enxergando coisas que, até então, os reflexos enganosos furtavam da minha visão. Fiquei tão feliz que comecei a usar os óculos até nos dias nublados e durante a noite.
Mas um dia desses, divagando enquanto dirigia, um pensamento assustador mexeu com minha tranqüilidade. E se o mundo não é como eu o enxerguei e percebi até agora? E se tudo não passa de uma ilusão? Será que fui enganado, ludibriado, durante todos estes anos?
Estou pensando seriamente em quebrar os óculos e recuperar minha paz.


Escrito por Carlos Higgie às 10h05
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CRÔNICA DE UM CONTO DELETADO

CRÔNICA DE UM CONTO DELETADO


O relato ficou excelente. Se fosse um vinho seria dos bons, desceria redondo, com muito corpo e sabor. Era um conto mais de amor e paixão. Uma narração falando de tempos idos, porém não esquecidos, de quando o sangue fervia intensamente e nossos hormônios, nossos instintos batiam insistentes, quase com raiva.
Hoje, quando inseri o disquete no computador, abri o arquivo e me preparei para corrigir, burilar aqui e ali, melhorar alguma frase, destacar melhor alguns dos protagonistas, tive uma desagradável surpresa. Durante a noite algum duende maléfico, algum vírus terrível, comeu meu conto. Comeu o corpo dourado de Marcela e os sussurros, os gritos de Leandro. Não restava nada da doce e sensual estória, da deliciosa luta no banco traseiro do carro, da descrição exata da boca-fruta de Marcela abrindo-se para o gemido, para o beijo, para a entrega total. Só restou, no fundo da minha alma, a esquisita sensação de perda, de que algo ou alguém tinha assassinado meus queridos personagens. Sobrou a irritante sensação de que esse duende desconhecido, que perambula pelo mundo virtual, matou-os sem piedade, somente porque eram um exemplo fiel do que é o amor: alma e corpo, pensamentos e ação, músculos e humores, gritos e sussurros, encontrando-se e desencontrando-se, gerando uma energia incrível, que faz balançar o próprio universo.
Se, como acontecia antigamente, escreve-se num caderno ou com minha velha máquina de escrever, eles ainda estariam vivos e amando-se. Dormirei esta noite pensando neles e, quiçá, amanhã pela manhã, encontre-os em um dos meus arquivos ou ao dobrar uma esquina solitária, novamente, deliciosamente abraçados. Talvez de algum recanto esquecido da minha existência, eles ressurjam com brilho estonteante, para mostrar-me, uma vez mais, como se constrói o amor.
Nada é mais desolador e triste que um escritor percebendo, impotente, como seus personagens morrerem, sem direito a reclamação nem ressurreição.



Escrito por Carlos Higgie às 10h04
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